Pois é, a nossa mega-arrumação ainda continua! se calhar devíamos ter tirado férias e durante uns dias e não fazer mais nada a não ser a nossa grande re-organização da casa, mas não deu para fazer assim porque temos estado bastante ocupados em termos de trabalho e afins... por isso a coisa vai devagar devagarinho, aos bocadinhos...
Ontem atacamos o armário do escritório. O armário é enorme, estava cheio de coisas (muito arrumadinho, até, mas cheio...) e seguindo o padrão habitual o que fizemos foi esvaziá-lo completamente, com o efeito imediato de aumentar exponencialmente a entropia do escritório e arredores.
Depois do armário estar completamente vazio, começamos então o ataque ao conteúdo, entretanto espalhado pelo chão do escritório. Uma quantidade considerável do trabalho foi encher sacas e sacas e sacas com papel para reciclar... eu tinha uma montanha de pastas de cartão (de arquivo morto) muito organizadinhas e etiquetadas (que apesar de tudo sempre fui uma rapariga organizada) com coisas como revistas (por exemplo todas as Super Interessante, desde o nº 1!, as revistas da Deco, etc....) e papeis vários (manuais de software, alguns bem antigos, anteriores a 2000!, coisas sobre linux, etc...). Por isso uma parte considerável do tempo foi passada a ver o conteúdo dessas pastas e verificar o que ficava e o que ía para reciclar (e grande parte foi mesmo para reciclar...). Mais uma montanha de fotocopias de livros e afins do nosso tempo da faculdade (que também foram direitinhos para o monte de coisas para reciclar). E mais papeis, papeis, papeis...
Devo ter ganho imenso espaço no armário só a pôr o óbvio para reciclar. O unico problema é que verifiquei que a casa do lixo estava algo cheia (como é habitual depois do fim de semana), e não tive coragem de lá pôr a pilha de coisas que rápidamente acumulamos... pelo que tranferimos a pilha de tralha de dentro do armário para o hall, mas é temporário - espero! (porque ainda vai implicar muitas e muitas viagens à casa do lixo...). Além da montanha de papel para reciclar, conseguimos também acumular uma quantidade impressionante de lixo electrónico - disquettes, cd's, hardware (discos, modems, ...), cabos, carregadores de diferentes tamanhos e feitios,... até descobrimos um computador de secretária antigo, enorme, que não nos lembrámos que estava lá! (se bem que a caixa tivesse de facto uma etiqueta com o conteúdo explícito, mas como era das coisas mais ao fundo simplesmente esquecemos que tínhamos lá isso).
Durante o processo de esvaziamento do armario várias vezes ía entrando em hiper-ventilação face à enormidade da coisa... como é possível acumular tanta tralha?! e note-se, estava até tudo muito arrumadinho, em pastas, caixas, tudo etiquetadinho, etc... mas para quê?!?
Apesar do trabalho que deu, e da sensação de "overwhelming", também foi engraçado - uma espécie de arqueologia pessoal! Fomos desenterrando do armário os vestígios dos nossos primeiros passos no trabalho - pastas e pastas do que na altura parecia ser tão útil e importante - lembranças de viagens (postais, posters,...) e outras coisas que tais. O momento hilariante do dia terá sido quando me saí com o "acho que vou pôr o penico do Nenuco para reciclar" - agora nem parece ter tanta piada, mas na altura rimo-nos um bom tempo à conta disso, talvez só pelo inesperado e porque apareceu assim um pouco fora do contexto, digamos... e just for the record sim, ainda tenho o meu Nenuco (que terá certamente quase trinta anos) mas consegui ver-me livre da minha caixa de trabalhos da Escola Francesa - sim, ainda tinha guardado, muito acomodadinho, os meus trabalhos da pré-primária! E ainda falo do Zé, e que ele gosta de guardar coisas!?! shame on me!! (Note-se que vi-me livre dos trabalhos manuais, mas fiquei com os cadernos dos 3 aos 5 anos, com a minha "arte" da altura). Talvez na próxima arrumação (daqui a pelo menos 10 anos) consiga livrar-me deles, mas para já ficam, que ainda há espaço ;)
Talvez a parte mais estranha foi quando cheguei a uma caixa cheia de uma miscelânea diversa que estava rotulada como "recordações" (já disse que até sou uma rapariga organizadinha, com tudo etiquetado, não já?!). Bom, tinha muita coisa estranha, e que também foi para reciclar - como o meu diploma de participação no casco-paper em 1993, e o meu "telescópio", adereço de caloira de astronomia (porque é que não terei guardado também as orelhas de burro, já agora?!). Tinha a minha pasta da Faculdade, com as fitas azul ciência (nunca tive cartola, não achava piada nenhuma, mas adorava as fitas!) - também vai para reciclar, vou só guardar uma fita especial.
Desencantei uma quantidade de agendas dos anos 90, que folheei por alto, e que verifiquei atestarem a minha tendência gtd-ziana pré-digital - e que também vão para reciclar. Junto das agendas estavam caderninhos de contactos (na era pré-telémovel, punha-se em papel o número de telefone das pessoas) e foi uma sensação melancólica passar os olhos pelos nomes que foram, grande parte deles, escorregando devagarinho para o esquecimento e saindo da minha vida quase sem dar por isso... Encontrei também os meus diários (que atestam que a minha panca de logs e registos escritos vem de longe) mas não quis abri-los (estão fechados com um cadeadito e não sei da chave) mas nem é por isso - não me quero assustar com a minha escrita pré-18! mas vou mantê-los, pode ser que aos 90 anos ache piada lê-los, mas para já... no way!
A experiência talvez mais intensa foi descobrir a imensidão de cartas e postais antigos. Encontrei uns postais de aniversário de 1976 e 77 (eu nasci em 75....) e muitos bem mais recentes - quase todos de pessoas de que me lembro bem, mas outros nem tanto (tenho, como é sabido, uma memória péssima).
E as cartas... desde umas cartas em letra redonda de amigas da adolescência sobre as trivialidades (importantes na altura), tipo... como é a turma, o que se fez nas férias, etc, que achei divertidas pela inocência de um tempo simples - suponho que agora o pessoal envia e-mails e sms's, mas na altura, eram cartitas "a sério"... até umas missivas de um namorado que tive antes de conhecer o Zé (não li, mas guardei, faz parte da história) - já as cartas do Zé ocupam quatro pastas de arquivo, e estão noutra secção, embrulhadas com fitas cor de rosa - quem diria que seria assim tão démodée?! ( é por acaso, suponho, que não gosto nada de cor de rosa, a minha côr é o azul).
E as cartas da minha amiga Paula, a minha melhor amiga na escola até ao 9º ano... não as reli todas, mas fiquei contente por notar que a última era já sobre a faculdade (ela estava em letras, em Vila Real), por isso ainda mantivemos o contacto por alguns anos - mas acho que nunca nos chegamos a encontrar pessoalmente depois do 9º ano, o que agora me parece muito estranho... mas acho que até à faculdade nunca tive grandes amigos, e tenho a sensação que as pessoas sempre me ligavam mais a mim do que eu a elas... não é que eu não ligasse às pessoas, suponho que por incapacidade minha acabava por me interessar mais por outras coisas - livros por exemplo... em versão século vinte e um da minha pessoa, diria que sou melhor em "human-to-computer" do que "human-to-human interaction", uma piada que ainda lanço de vez em quando (apesar de agora estar bem melhor, espero...).
De entre as coisas do tempo da faculdade encontrei um cartoon que os meus amigos fizeram durante a aula de física experimental - sei porque está lá escrito... e tenho uma vaga ideia desse dia e da brincadeira à volta do cartoon, mas não faço ideia porque o guardei... talvez porque me lembra desse tempo e desses dois amigos, que também desapareceram da minha vida cedo demais. Definitivamente, acho que nunca fui uma boa amiga, ou pelo menos nunca tive muito jeito. Que o diga o meu melhor amigo (pelo menos era - que com amigas destas não se precisa de inimigos). Mas com este ainda tenho contacto e vou tentar compensar os ultimos anos... não me parece que vá conseguir retribuír toda a amizade que tive até agora, mas vou tentar... e já resolvi que vou convidar outro amigo que não vejo há uns meses para tomar um café, antes que passe a fazer parte da caixa das recordações...
Finalmente, e para terminar num tom divertido, descobri ainda na caixa das recordações uma folhinha muito bem preservada do 1º ano da faculdade com uma composição, na minha letrinha certinha, sobre o tema que me tinham atribuído "A roupa interior dos enxames galácticos e o seu contributo na excitação sexual dos alces amazónicos" (a praxe em astronomia era muito "cultural"). Ao reler o texto, que até está muito bem articuladinho (principalmente tendo em conta a temática exótica) não pude deixar de pensar que se calhar deveria ser escritora em vez de cientista... principalmente porque tenho necessidade da escrita como catarse, como demonstra este post... se alguém conseguir ler até aqui - o que duvido, e não levo a mal ;)