Estes dias e o fim de semana foram mais ou menos caóticos, e ainda estou a recuperar (por isso é que ando atrasada na escrita, e o blog está desactualizado). Por um lado estou com imenso trabalho (ok, eu tenho sempre muito trabalho, mas estou mesmo, mesmo muito ocupada - ainda mais do que o costume, se é que é possível!). Por outro lado fui passar o fim de semana no sul, o que alterou completamente as minhas rotinas. E para (des)ajudar, estive três dias completos sem rede (!) e senti inequivocamente sintomas de privação - ao ponto de mesmo sabendo que não havia rede fazer repetidamente scan no palm de eventuais redes wireless, como se de tantas vezes perguntar a mesma coisa o bichinho se fartasse e miraculosamente me respondesse que havia rede algures... mas não, no deserto não há wireless, nem no moshav onde eu estava...
Aqui vai então a história do fim de semana. Uma colega do trabalho (a minha vizinha, que tem o gabinete colado ao meu) convidou-me para passar o fim de semana em Bersheeva. Eu não a conhecia bem (só de vista, ocasionalmente) e só o pensar em passar o fim de semana longe do meu "ambiente" causava-me bastante desconforto e alguma apreensão... mas como não tinha nenhuma desculpa razoável para recusar o convite, resolvi aceitar... eu sei que sair da minha rotina é uma forma de alargar a zona de conforto, mas isso não evitou muitos grunhidos internos enquanto preparava as tralhas para o fim de semana...
Assim na quinta feira de manhã levei além da mochila do costume a bagagem para o fim de semana, e em vez de voltar para casa na quinta feira à tarde fui com a minha colega para Bersheeva. O "passeio" começou logo aí, porque em vez de ir pela auto-estrada fomos pela estrada das montanhas da Judeia, para que eu pudesse ver as amendoeiras em flor. Já conhecia o caminho, de outras alturas, mas é sempre uma paisagem que eu gosto bastante, e muito mais interessante (embora mais lento) do que o percurso habitual.
A minha amiga não mora exactamente em Bersheeva, mas num moshav a cerca de 15 km, que em português se chamaria algo como "Tarrshur" (תחשור). Fica na área do deserto do Negev - tanto quanto eu percebi os locais afirmam que não estão no deserto mas na fronteira do deserto, enquanto que todos os outros dizem que eles moram no deserto... é tudo uma questão de definição... geográficamente estes povoamentos ficam no deserto do Negev, mas numa zona que recebe um pouco mais de 200 mm de chuva por ano, e é por essa razão que eles acham que não estão exactamente no deserto... enfim, pela minha definição, é deserto o suficiente!
Este moshav é muito catita, com casinhas muito arranjadinhas e jardins. Moram lá só cerca de 60 famílias, por isso todos se conhecem e é muito diferente de uma cidade. É um isolamento que é dificil de imaginar, rodeados de deserto, mas é engraçado. A casa da minha amiga é muito agradável - apesar de ser grande e ter uma piscina enorme, o estilo é descontraído e muito confortável. Curiosamente, fez-me lembrar uma casa nórdica - o "estilo Ikea" ajuda, suponho ;) Apesar dos meus receios dei-me muito bem com o resto da família (o marido, que é médico, e o filho) e correu tudo muito bem... descobri que somos bastante "compatíveis" em muitas coisas - suponho que naturalmente acabamos por estar com pessoas que de alguma forma nos são próximas e com valores/ideias semelhantes :)
Na quinta feira à noite fomos jantar fora, em Netiovot. A população da zona de Bersheeva é diferente da do norte, tem mais judeus que vieram dos países vizinhos e não da Europa, e por isso a gastronomia é diferente (e supostamente melhor). Provei um prato típico da cozinha judia do norte de Africa (esqueci o nome), uma espécie de ovos com tomate e que era de facto muito bom. Além da comida (gosto imenso da comida israelita) também gosto bastante do ambiente descontraído que habitualmente se encontra nos restaurantes em Israel, é confortável...
Na sexta feira de manhã a minha colega levou-me a uma aula de cerâmica, lá no moshav. A professora era mesmo uma artista fantástica e todo o sítio era muito especial. Quanto à cerâmica moldei um potezinho (ficaram de mo mandar, depois de ir ao forno) e foi engraçado. Depois da cerâmica fui a uma espécie de festa para celebrar o nascimento de uma menina. Era exactamente como o copo de água de um casamento, mas sem a parte do casamento... não exactamente o meu tipo de actividade favorita, mas enfim, é uma experiência...
Passamos o resto da sexta feira a cozinhar para o shabbat. Os meus amigos não são religiosos, por isso não é pela obrigação de não cozinhar no sábado, é mais a cultura / estilo de vida, e não desgosto da ideia... passamos a sexta feira a tarde a cozinhar, mas depois relaxamos durante o resto do fim de semana, não é mau... Na sexta feira à noite havia mais dois casais convidados para o shabbat, pelo que foi um jantar à maneira... longo mas muito agradável, com vários pratos e muita conversa pelo meio. No sábado fomos passear de jeep pela zona... com muitos solavancos e alguma lama. Não consegui ver nenhum animal grande (na semana anterior tinham conseguido ver uma hiena enorme), mas o passeio em si foi muito, muito giro. Depois ainda fomos até uma cidade beduína (eles queriam mostrar-me como era, dado que nunca tinha estado em nenhuma) e tomar um café com amigos de um kibbutz próximo.
Foi um fim de semana diferente mas muito engraçado... agora preciso de outro para recuperar ;)