Hoje tive talvez a experiencia mais estranha desde que cheguei à India. Não vou dizer que não tive medo, é bastante assustador, mas a certa altura deixo de ter medo, como se fosse outro que não eu a viver aquele momento, e eu fosse um mero espectador que observa o desenrolar dos acontecimentos, talvez até semi-divertido com o inesperado da coisa...
Então foi assim: um colega daqui que conheci à hora do almoço queria mostrar-me o trabalho dele, porque tem dados experimentais e precisava de ajuda para os analisar, e por isso queria colaborar comigo. Apesar de ter trabalho até aos cabelos, como se costuma dizer, não resisto a um tema interessante e a umas seriezinhas temporais novas, e estas eram de dados magneticos para estudos de paleoclima, um tema que eu gosto bastante... por isso mal terminou a conferencia fui com o tal colega ver as ditas (séries temporais) e foi mesmo muito interessante... No fim da conversa, o meu colega ofereceu-se para sair comigo e mostrar-me Dheradun, e eu aceitei - não porque me apetecesse muito, que estes dias tenho tido tão pouco tempo para respirar que estava mesmo a precisar de ter algum tempo para mim, mas achei que era indelicado recusar...
Então, o meu colega disse que ía só buscar a bike... aqui há imensas bicicletas e motas, e é comum levarem 3 ou mesmo 4 passageiros (não me perguntem como!). Comecei a imaginar a aventura que seria andar de bicicleta em Dehradun! mas não estava assustada ou preocupada, e talvez inexplicavelmente nem me passou pela cabeça recusar... eu alinho com o que me aparece (dentro do limite do razoável) sem grandes questões - cômo tudo o que me põem no prato, cumprimento da forma tradicional, e se é para comer com as mãos cômo com as mãos, se é para andar de camelo é para andar de camelo, e se é para ir de bike... seja, é para ir de bike! suponho que é uma das maneiras de lidar com a diferença...há quem tente esforçadamente manter os modos habituais a qualquer custo (tipo tentar cozinhar bacalhau em Israel), eu tendo a alinhar com o sítio, porque de alguma forma sinto que é um privilégio poder provar uma cultura diferente, e tento aproveitar ao maximo essa experiência... por isso em Israel sou uma rapariga de falafel e humous, na Dinamarca bebericava (bebia talvez seja um abuso de linguagem) cerveja e andava de bicicleta, e aqui na India... cômo arroz, dhal e chapata, já estou a ficar bem experiente em comer com os dedos (da mão direita) e até já dou por mim a menear a cabeça "em curva e contra-curva"...
Por isso, lá estava à espera da bike, mas afinal não era uma bicicleta, como eu pensava mas uma mota, das grandes, até toda high-tech... por isso, vi-me rápidamente em cima de uma mota, sem capacete, a percorrer as ruas de Dehradun. Para quem nunca esteve na India, é dificil de explicar o que "as ruas de Dehradhun" quer exactamente dizer... é uma confusão infernal, com imensas pessoas, bicicletas, motas, carros, algumas vacas, um barulho enorme, muita desordem - e eu nem sequer estou habituada a andar de mota em ruas normais, quanto mais aos ziguezagues no meio da confusão de uma movimentada rua na India! Mas sobrevivi, não só estou aqui para contar como foi, como devo dizer que à vinda já nem tinha grande medo e até apreciei o passeio, mas no início ía um bocadito assustada, com todas as buzinelas e todas as rasantes a carros, motas e camiões, os solavancos, as ruas sem asfalto aos tropeções... e o meu colega conduzia tipicamente à indiano, uma sucessão de acelerações e travagens bruscas, e muitos ziguezagues e excursões pela mão contrária - senti-me como quem anda numa montanha russa, mas talvez pior..
Mas valeu a pena, porque fomos até à escola da filha do meu colega, porque era a festinha do colégio. Foi muito engraçado, porque estava tudo super-organizado e muito profissional (notei exactamente o mesmo padrão na conferência aqui, uma surpreendente espécie de formalidade britânica). Começou pelo acender da luz (que também houve aqui na conferência) e várias actuações dos alunos da escola, desde canções tradicionais, quawali, mahaganpatim, várias danças, e uma complexa peça em hindi; não só os miudos portaram-se como profissionais (sem perder a graça de serem miudos) como tudo, cenários, luzes, trajes, estava muito bem feito... no fim acabei a tirar imensas fotografias (que os filhos e a mulher do meu colega faziam imensa questão em posar comigo para o "snap" (como eles chamam), e pronto, foi giro... mas a parte da moto... foi uma aventura!