Saturday, 19 July 2008

Vantagens das "férias"

Não, não vou falar das férias que estou a precisar, e que este ano não vou ter... como tenho dito ultimamente, a mais do que uma pessoa que se tem queixado do mesmo, é como se o sistema chegado a esta altura do ano soubesse que é altura de descanso e nos pusesse a suspirar pelas férias como uma miragem no mais árido deserto...

Não é dessas férias, mas das férias das aulas de yoga de que vou falar... Devo começar por dizer, como disclaimer, que gostava muito de poder encurtar estas férias forçadas de dois meses sem aulas de Iyengar yoga, que já me arrependi amargamente de não me ter inscrito para as workshops de Julho, horário de trabalho ou não, e que dava tudo para ter uma aulinha, nem que fosse uma por mês. Por isso, não estou propriamente exultante com estas férias. Mas, tentando combater a minha tendência natural para o pessimismo, e porque o ficar com pena de não ter as aulas não adianta nada, tenho tentado aproveitar as "férias" e admito que noto alguns efeitos positivos (ou menos negativos).

Para começar, a minha prática em casa está bastante mais regular - no ultimo mês consegui chegar aos 86% de um total "ideal" de seis vezes por semana (já disse que tenho a panca dos logs?!), o que foi um record, porque muitas vezes, mesmo contando com as aulas 3 vezes por semana, ficava abaixo dos 50%. Em geral só tenho saltado a minha prática quando por qualquer motivo fora do habitual não posso à hora do costume (~18:30) ou quando troco a hora do lanche... muitas vezes os horarios das refeições acabam por me condicionar mais do que qualquer outra coisa...
Depois, a minha pratica está bastante mais sistemática. Acho que tem ajudado o seguir os "cursos" no fim do livro dos Mehta (é um livrinho fantástico e tem-me sido muito útil); o que faço é antes da minha prática sentar-me à secretária, com o meu bloquinho de notas, e só então escolho o que vou praticar; mas não é uma escolha aleatória, porque verifico no meu bloquinho qual a lição que se segue (alterno as lições no curso dos Mehta entre práticas com e sem posturas de pé) e em geral é essa a sequência que sigo, a não ser que opte por uma prática recuperativa ou específica para algum "achaque". Tenho-me sentido bem com este esquema, porque dá-me uma sequência de lições a seguir e uma sensação de estrutura e continuidade, mas ao mesmo tempo não é demasiado rígido e permite-me alguma flexibilidade.

É dificil explicar porque é tão importante a prática em casa. No outro dia estava a tentar explicar a uns colegas (que encaram com bonomia a minha "devoção" pelo yoga, que aceitam como excentricidade de cientista), que era como aprender matemática, não era possível fazê-lo sem trabalhos de casa e sem resolver sozinho as equações e os integrais... mas suponho que não foi uma analogia muito boa, porque os colegas são geólogos (para quem a matemática é mais ou menos um bicho papão) pelo que a prática de exercicios de matemática em casa deve soar mais como um sacrifício dispensável do que qualquer outra coisa... de qualquer modo acho dificil de explicar a quem não pratique yoga. De certo modo, acho as aulas mais fáceis; sem duvida mais exigentes em termos físicos, mas mais faceis do ponto de vista mental - há o professor, os colegas, e uma pessoa está atenta em seguir as aulas e todas as instruções e correcções. Quando se pratica sozinho é mais dificil manter a mente focada e a atenção, e é precisamente esse um dos desafios e "prazeres". Acho que quando pratico sozinha tenho mais noção do quanto me distraio - é impressionante! Perco-me com pedaços de e-mails que tenho de escrever (por vezes consigo imaginar o texto completo, desde a saudação à assinatura), também bocados de artigos, código (em particular quando ando particularmente embrenhada nalgum script), pedaços de conversas, aspirações, o que vou fazer para o jantar, tudo o que se possa imaginar numa teia retorcida de pensamentos. E no meio da confusão, há um instante mágico em que me apercebo que estou a divagar, e é esse o momento precioso, quando me apercebo que me perdi e volto ao presente ... até à próxima distracção.
Mesmo quando corre bem, quando sinto que uma postura em que tenho dificuldade (são quase todas, mas enfim) corre por qualquer motivo inesperadamente bem, quando parece que tenho os braços mais compridos ou as pernas mais curtas, mesmo aí acabo por me distrair. Porque corre tudo muito bem até ao momento em que digo para mim mesma "estou a fazer mesmo bem, tenho que me lembrar como estou a fazer agora" ou qualquer coisa do género) e pronto lá deixo de estar com atenção na postura (estou antes a comentar a minha performance) e o resultado imediato é escangalhar tudo, e em geral ficar ainda pior do que o costume... Mesmo em posturas simples e mais faceis, é impressionante como é dificil manter a atenção; mesmo quando julgo que estou a fazer "bem" passado algum tempo a rótula cai só por "preguiça mental" de a manter presa, ou melhor é um sinal claro de que entrei em modo divagante. Em halasana noto que o manter as pernas esticadas não é extremamente dificil fisicamente mas claramente a mente chateia-se de estar focada nessa tarefa, e é uma "luta" constante. Em posturas que demoram mais tempo instala-se por vezes uma espécie de claustrofobia mental, como se esperar mesmo que mais um minuto fosse quase insuportavel. Por isso a minha prática é mais ou menos isso, eu e a minha mente, em diálogo (muitas vezes de surdos).

Em resumo, sinto falta das aulas, estou ansiosa por recomeçar em Setembro, mas até lá vou tentando aproveitar a minha pratica em casa. A única coisa que me chateia mesmo é o calor, não tanto a temperatura em si, mas o suar... muito! a ponto de me perturbar a prática - os pés escorregam nas posturas de pé e só consigo fazer adho mukha svanasana com os dedos contra a parede, senão estou sempre a escorregar - até já pensei que tinha que arranjar o pózito que o pessoal da escalada usa para as mãos...